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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Uruguai: o país destaque do ano de 2013

O Uruguai ganha o mundo

Presidente do Uruguai, José Mujica
 
 
 
O Uruguai quebrou mais um entre tantos paradigmas no ano que termina: sob um governo de esquerda, foi escolhido “país do ano” por uma publicação marcadamente liberal – a britânica The Economist.
Tal distinção foi concedida pela primeira vez na história de 170 anos da revista, acostumada a recomendar receituários austeros às nações de todo o mundo. Curiosamente, tais prescrições resumem tudo o que o presidente uruguaio José Mujica, ex-guerrilheiro tupamaro, rejeitava e rejeita ainda hoje.
Mais curioso ainda: os motivos que levaram a revista a eleger o Uruguai poderiam descrever em um tuíte o próprio Mujica: “Modesto, porém ousado, liberal e amante da diversão”. Fica claro que o Uruguai ganhou o mundo.
Poucas semanas atrás, o país aprovou um projeto de lei que regula a produção e venda de maconha. Antes, já havia dado sinal verde ao casamento gay e ao aborto.
O que motivou a revista foi, sobretudo, a Cannabis sativa. Diz a Economist: “É uma mudança tão sensível, que joga para fora os bandidos e permite que as autoridades se concentrem em crimes mais graves, que nenhum outro país a fez”. Ao lembrar o casamento gay, a revista acrescenta: a medida “aumentou a quantia mundial de felicidade humana sem custo financeiro”. Simples assim.
Quanto a Mujica, a definição da publicação é de que é um político de franqueza “incomum”.
O título informal é o apogeu de um ano no qual o Uruguai esteve em evidência. Em junho, o mundo se surpreendeu com o encontro entre o papa Francisco e Mujica, no Vaticano. Depois da reunião, foi dito que o Papa ficou “muito feliz por ter se reunido com um homem sábio”.
Nada mais apropriado que um papa jesuíta de prédica franciscana se sinta à vontade com Mujica. O presidente uruguaio é tido como o chefe de Estado mais pobre da América Latina. Mantém o mesmo patrimônio que tinha quando chegou ao poder, em 2010: a chácara distante 20 minutos do centro de Montevidéu e um fusca modelo 1987. Mujica doa 90% do salário mensal de US$ 12,5 mil a programas sociais. Há pouco, disse que adotará “30 ou 40” crianças de baixa renda ao fim de seu mandato.
– Mujica se tornou uma marca e sabe explorá-la. Apresenta-se como a antítese do político tradicional rodeado de luxos, protocolo e guarda-costas, ainda que tenha jogo de cintura para adaptar sua linguagem – analisa Gonzalo Terra, subeditor da seção nacional do jornal uruguaio El País, que diz que, enfim, a imagem de Mujica se impôs:
– Durante a campanha eleitoral, esse estilo gerava dúvidas, e muitos se perguntavam como representaria o país no âmbito internacional. Passados três anos, parece ter ganho essa batalha, pois fascina a mídia do mundo inteiro. Seu estilo não surpreende no Uruguai, porque sempre foi assim, o que não o salva de duras críticas internas por problemas de gestão.
Simpatia pelo discurso libertário...
Em setembro, José Mujica proferiu um discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em que provavelmente pavimentou de vez o caminho para o reconhecimento internacional.
As palavras de profundo teor humanitário tomaram conta das redes sociais. Foi como um hino hippie em pleno século 21. Mujica se pronunciou favoravelmente à ciência. Condenou as guerras. Ofereceu-se para intermediar as negociações entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo da Colômbia a fim de obter a paz buscada nos intermináveis diálogos travados em Havana.
– Ele é um homem que tem visão social e que preconiza a liberdade das pessoas. Merece receber as honrarias que tem recebido – diz Julio Rey, ativista pela liberação da maconha.
– O Uruguai se consagra como um país onde se reconhece um olhar generoso para uma sociedade heterogênea. Não há uma leitura homogeneizante – concorda a advogada Michelle Suárez, integrante do grupo Ovelhas Negras, ONG de defesa dos direitos da comunidade gay no Uruguai.
Na ONU, Mujica enfatizou a expressão “ninguém é melhor do que ninguém” e disse frases como “Olá a todos, venho do Sul, esquina com Atlântico e o Prata”, para acrescentar: “Nossa época continua dirigida pela acumulação e pelo mercado. Prometemos uma vida de resíduos e desperdícios”. Depois, emendou: “Minha história pessoal é a de um garoto, porque algum dia fui um garoto, que como outros quis mudar sua época, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes”.
... e críticas a medidas temidas radicais
José Mujica, o homem que conduziu seu país a ser modelo para o mundo na avaliação da The Economist, também é motivo de críticas.
O senador Alfredo Solari (do opositor Partido Colorado) se vale de estudos científicos para dizer que a maconha causa danos neurológicos. E duvida da capacidade de fiscalização.
– Corremos o sério risco de nos tornar um foco regional para o turismo da Cannabis sativa, como teme a região, com toda razão. Além disso, a maconha prejudica os seres humanos – diz o senador, médico de formação.
O senador do Partido Nacional Jorge Larrañaga, ex-candidato presidencial, diz que legalizar a maconha sob o argumento de que a guerra às drogas falhou é uma forma de rendição.
– O governo vai vender um produto melhor e mais barato. É claro que isso vai fazer aumentar o consumo. Transformaremos o país em um centro de turismo da droga.
Também há ginecologistas que se rebelaram contra a legalização do aborto. Como? Negando-se a fazer o procedimento.
A ginecologista María Luján Chiesa reclama:
– A medicina existe para curar e salvar vidas. Sabemos muito bem que um aborto é um assassinato.
Também ginecologista, Ricardo Pou Ferrari, um dos ativistas contra o aborto, concorda:
– Nem a Sociedade de Ginecologia nem o Colégio Médico foram consultados. Foi uma legislação imposta de cima para baixo e que vai contra os princípios éticos mais elementares da nossa profissão.
O governo, por meio do ministro da Saúde, Leonel Briozzo, defende a lei dizendo que, ao permitir o aborto nas 12 primeiras semanas de gestação, quer preservar a vida das mulheres.
O que faz o país digno de nota
Começou com a instituição do divórcio no país, em 1907, décadas antes dos vizinhos de América Latina. Continuou com a regulamentação da jornada de oito horas, sete anos depois, com o direito de voto às mulheres, em 1932, até uma série de recentes medidas modernizadoras. O motivo da fascinação do mundo pelo Uruguai parece ser a vanguarda e a reinvenção constantes no país.
Casamento homoafetivo
O parlamento abriu as portas para a adoção de crianças por casais gays em 2009. Em 2010, o governo decretou o fim da restrição à entrada de homossexuais nas Forças Armadas. O Uruguai aprovou em maio o casamento homossexual, se tornando o segundo país latino-americano a tornar lei a união entre pessoas do mesmo gênero, depois da Argentina.
A questão do aborto
O aborto foi descriminalizado em outubro de 2012, mas não sem certa dificuldade. A legalização da prática foi aprovada pelo parlamento, em 2010, mas o então presidente, Tabaré Vázquez, que é médico, alegou questões éticas para vetar a medida. Em 2012, José Mujica apresentou novo projeto de lei, que foi aprovado e confirmado.
Regulamentação da maconha
Em novembro, foi aprovada a lei inédita que confere ao Estado o papel de regulador da comercialização e da produção de maconha no país. A legislação tem como intuito preservar o usuário da violência do narcotráfico e acabar com o crime organizado decorrente da indústria da droga.
O homem no topo
O comandante José Mujica, segundo a The Economist, é admiravelmente modesto. “Com uma franqueza atípica aos políticos, ele se referiu à nova lei (da maconha) como um experimento. Ele mora numa chácara humilde, vai ao trabalho dirigindo um Fusca e viaja de classe econômica”, diz a revista.

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