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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

10 verdades e 10 mentiras sobre a Venezuela

Geografia da América Latina

Mídia venezuelana e internacional difundem uma versão distorcida dos fatos; a aposta dos conservadores é tornar o país ingovernável


Nos últimos dias a Venezuela voltou às manchetes dos jornais do mundo devido a uma série de manifestações de rua. Abaixo, apresento uma série de mentiras alardeadas pela chamada “grande mídia” e as suas respectivas verdades.
Mentira: Os opositores saíram às ruas porque estão descontentes com os rumos do país e querem melhorar a situação.
Verdade: O que está em curso na Venezuela é o chamado “golpe em câmera lenta”, que consiste em debilitar gradualmente o governo até gerar as condições para o assalto direto ao poder. O atual líder oposicionista, Leopoldo López, não esconde esse objetivo, ao pregar aos seus partidários que permaneçam nas ruas até o que ele chama de “La Salida”, ou seja, a derrubada do governo. O roteiro golpista, elaborado com a participação de agentes dos Estados Unidos, combina as manifestações pacíficas com atos violentos, como a destruição de patrimônio público, bloqueio de ruas e atentados à vida de militantes chavistas. A mídia venezuelana e internacional tem um papel de destaque nesse plano, ao difundir uma versão distorcida dos fatos. A aposta da direita é tornar o país ingovernável. Trata-se de criar uma situação de caos até o ponto em que se possa dizer que o país está “à beira da guerra civil” e pedir uma intervenção militar de estrangeiros. Outro tópico desse plano é a tentativa de atrair uma parcela das Forças Armadas para a via golpista. Mas isso, até agora, tem se mostrado difícil.
Mentira: A Venezuela é um regime autoritário, que impõe sua vontade sobre os cidadãos e reprime as manifestações opositoras.
Verdade: Existe ampla liberdade política no país, que é regido por uma Constituição democrática, elaborada por uma assembleia livremente eleita e aprovada em plebiscito. Nos 15 anos desde a chegada de Hugo Chávez à presidência, já se realizaram 19 consultas à população – entre eleições, referendos e plebiscitos – e o chavismo saiu vitorioso em 18 delas. Foram eleições limpas e transparentes, aprovadas por observadores estrangeiros das mais diferentes tendências políticas, inclusive de direita. O ex-presidente estadunidense Jimmy Carter, que monitorou uma dessas eleições, declarou que o sistema de votação venezuelano é “o melhor do mundo”. Esse mesmo sistema eleitoral viabilizou a conquista de inúmeros governos estaduais e prefeituras pela oposição. Há no país plena liberdade de expressão, sem qualquer tipo de censura.
Mentira: Quem está protestando contra o governo é porque “não aguenta mais” os problemas do país.
Verdade: A tentativa golpista, na qual se inserem as manifestações da direita, reflete o desespero da parcela mais extremista da oposição, que não se conforma com o resultado das eleições de 2013. Esse setor desistiu de esperar pelas próximas eleições presidenciais, em 2019, ou mesmo pelas próximas eleições legislativas, em 2016, ou ainda pela chance de convocar um referendo sobre o mandato do presidente Nicolás Maduro, no mesmo ano. Essas são as regras estabelecidas pela Constituição – qualquer coisa diferente disso é golpe de Estado. A direita esperava que, com a morte de Chávez, o processo de transformações sociais conhecido como Revolução Bolivariana, impulsionado pela sua liderança, entrasse em declínio. Apostava também na divisão das fileiras chavistas, abrindo caminho para seus inimigos. A vitória de Maduro – o candidato indicado por Chávez – nas eleições de abril de 2013, ainda que por margem pequena (1,7% de diferença), frustrou essa expectativa. Uma última cartada da oposição foi lançada nas eleições municipais de dezembro do ano passado. Seu líder, Henrique Capriles (duas vezes derrotado em eleições presidenciais), disse que elas significariam um “plebiscito” sobre a aprovação popular do governo federal. Mas os votos nos candidatos chavistas superaram os dos opositores em mais de 10%, e o governo ganhou em quase 75% dos municípios. Na época, a economia do país já apresentava os problemas que agora servem de pretexto para os protestos, e ainda assim a maioria dos venezuelanos manifestou sua confiança no governo de Maduro. Diante disso, um setor expressivo da oposição resolveu apelar para o caminho golpista.
Mentira: O governo está usando violência para reprimir os protestos.
Verdade: Nenhuma manifestação foi reprimida. O único confronto entre policiais e opositores ocorreu no dia 17 de fevereiro, quando, ao final de um protesto, grupos de choque da direita atacaram edifícios públicos no centro de Caracas, incendiando a sede da Procuradoria- Geral da República e ferindo dezenas de pessoas. Nestas últimas semanas, as ações violentas da oposição têm se multiplicado pelo país. A casa do governador (chavista) do Estado de Táchira foi invadida e depredada. Caminhões oficiais e postos de abastecimento têm sido destruídos. Recentemente, duas pessoas, que transitavam de motocicleta, morreram devido aos fios de arame farpado que opositores estendem a fim de bloquear as ruas.
Mentira: O governo controla a mídia.
Verdade: Cerca de 80% dos meios de comunicação pertencem a empresas privadas, quase todas de orientação opositora. Mas o governo recebe o apoio das emissoras estatais e também de centenas de rádios e TVs comunitárias, ligadas aos movimentos sociais e às organizações de esquerda. Isso garante a pluralidade política e ideológica na mídia venezuelana – algo que, infelizmente, não existe no Brasil, onde a direita controla quase totalmente os meios de comunicação.
Mentira: Os Estados Unidos acompanham a situação à distância, preocupados com os direitos humanos e os valores democráticos, para que não sejam violados.
Verdade: Desde a primeira posse de Chávez, em 1999, o governo estadunidense tem se esforçado para derrubar o governo venezuelano e devolver o poder aos políticos de direita. Está amplamente comprovado o envolvimento dos Estados Unidos no golpe de 2002, quando Chávez foi deposto por uma aliança entre empresários, setores militares e emissoras de televisão. Desde então, a oposição tem recebido dinheiro e orientação de Washington.
Mentira: Os problemas no abastecimento transformaram a vida cotidiana num inferno.
Verdade: Existe, de fato, a falta constante de certos bens de consumo, como roupas, produtos de higiene e limpeza e peças para automóveis, mas o acesso aos produtos essenciais (principalmente alimentos e medicamentos) está garantido para o conjunto da população. Isso ocorre graças à existência de uma rede de 23 mil pontos de venda estatais, espalhados por todo o país, sobretudo nos bairros pobres. Lá, os preços são pelo menos 50% menores do que os valores de mercado, devido aos subsídios oficiais. É importante ressaltar que o principal motivo da escassez não é nem a inexistência de dinheiro para realizar importações nem a incapacidade do governo na distribuição dos produtos. Grande parte das mercadorias em falta são contrabandeadas para a Colômbia por meio de uma rede clandestina à qual estão ligados empresários de oposição.
Mentira: A atual onda de protestos é protagonizada pela juventude, que está em rebelião contra o governo.
Verdade: Os jovens que participam dos protestos pertencem, na sua quase totalidade, a famílias das classes alta e média-alta, que constituem a quarta parte da população. Isso pode facilmente ser constatado pela imagem dos estudantes que aparecem na mídia. São, quase todos, brancos – grupo étnico que não ultrapassa 20% da população venezuelana, cuja marca é a mistura racial. E não é por acaso que os redutos dos jovens oposicionistas sejam as faculdades particulares e as universidades públicas de elite. Os jovens opositores são minoria. Do contrário, como se explica que o chavismo ganhe as eleições em um país onde 60% da população têm menos de 30 anos? Uma pesquisa recente, com base em 10 mil entrevistas com jovens entre 14 e 29 anos, revelou que 61% deles consideram o socialismo como a melhor forma de organização da sociedade, contra 13% que preferem o capitalismo.
Mentira: A economia venezuelana está em colapso.
Verdade: O país enfrenta problemas econômicos, alguns deles graves, como a inflação de mais de 56% nos últimos 12 meses. Mas não se trata de uma situação de falência, como ocorre na Europa. A Venezuela tem superávit comercial, ou seja, exporta mais do que importa, e possui reservas monetárias para bancar ao menos sete meses de compras no exterior. É um país sem dívidas. A principal dificuldade econômica é a falta de crédito, causada pelo boicote dos bancos internacionais.
Mentira: A insegurança pública está cada vez pior.
Verdade: A Venezuela enfrenta altos níveis de criminalidade, assim como outros países latino-americanos, inclusive o Brasil. Esse tema é uma das prioridades do governo Maduro, que chegou a mobilizar tropas do Exército no policiamento de certas áreas urbanas, com bons resultados. A melhoria da segurança pública foi justamente o tema do diálogo entre o governo e a oposição, iniciado no final do ano passado, por iniciativa do presidente. O próprio Chávez, em seu último mandato, criou a Polícia Nacional Bolivariana, a fim de compensar as deficiências do aparato de segurança tradicional, famoso pela corrupção. Outra estratégia é o diálogo com as “gangues” juvenis a fim de afastá-las do narcotráfico e atraí-las para atividades úteis, como o trabalho na comunidade e a produção cultural. A grande diferença entre a Venezuela e o Brasil, nesse ponto, é que lá o combate à criminalidade ocorre num marco de respeito aos direitos humanos. A política de segurança pública venezuelana descarta o extermínio de jovens nas regiões pobres, como ocorre no Brasil.
Fonte: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/02/10-verdades-e-10-mentiras-sobre-venezuela.html

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Parlamento da Ucrânia nomeia presidente interino para substituir Yanukovich

Parlamento da Ucrânia nomeia presidente interino para substituir Yanukovich

                                 Alexandr Turchinov assumiu como presidente interino até maio 


O Parlamento destituiu o presidente Viktor Yanukovich na manhã de ontem (22) após semanas de pressão de grupos ligados à ultradireita ao governo. Alexandr Turchinov assumiu interinamente.
Turchinov será presidente até as próximas eleições, agendadas para maio. Pouco antes de sua designação, ele pediu aos deputados que iniciassem consultas urgentes para formar uma coalizão de maioria capaz de formar um governo. “A situação na Ucrânia, particularmente de sua economia, é catastrófica. O governo de Yanukovich arruinou a economia e nos cofres públicos não há dinheiro”, disse.
Longe da capital, Kiev, onde opositores invadiram o palácio presidencial, o presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, denunciou ontem (22) ser vítima de um “golpe de Estado”. Yanukovich também disse que não tem a intenção de renunciar nem de deixar o país, como disseram líderes da oposição.
O presidente deposto ainda afirmou que todas as decisões tomadas pelo Parlamento – inclusive a libertação imediata da líder oposicionista Yulia Tymoshenko – são ilegais. O presidente comparou a situação na Ucrânia com a tomada do poder pelos nazistas na Alemanha na década de 1930, chamando os oposicionistas de “gângsters” e dizendo que não irá negociar com eles. “Adotamos duas leis sobre anistia, demos todos os passos que estabilizariam a situação política no país. Mas passou o que se passou”, disse.
Até o momento não há informações oficiais do paradeiro do presidente deposto.
                                Líder oposicionista Yulia Tymoshenko estava presa desde 2011
Calmaria em Kiev
De acordo com informações da imprensa europeia, a Praça da Independência, Kiev, transformada por semanas em zona de conflito civil, amanheceu tranquila. Já são mais de dez horas sem nenhuma ocorrência de violência.
Na noite de ontem, uma multidão se reuniu para celebrar a saída de Yanukovich de Kiev e receber a ex- primeira-ministra e líder opositora, Yúlia Timochenko, libertada da prisão horas antes. O comércio da região também abriu as portas depois de vários dias de atividades suspensas em função da violência.

Brasil e UE debatem acordo de associação entre Mercosul e Europa

Brasil e UE debatem acordo de associação entre Mercosul e Europa

 
A União Europeia (UE) e o Brasil, representado pela presidente Dilma Rousseff, realizam nesta segunda-feira (24) uma cúpula na qual as duas partes esperam dar apoio político à negociação de um acordo de associação entre o bloco europeu e os países do Mercosul, estagnada há anos.
Dilma, junto com os presidentes do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, e da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, farão um balanço das negociações que os dois lados retomaram em 2010, mas que não tiveram grandes avanços no terreno comercial, já que ainda não houve uma troca de oferta de acesso a mercados de seus produtos. Junto com os presidentes, participarão da cúpula o comissário europeu de Comércio, Karel De Gucht, e o chanceler Luiz Alberto Figueiredo, entre outros membros do governo brasileiro.
“Esta cúpula será uma ocasião importante para confirmar nosso compromisso conjunto de conseguir um ambicioso e equilibrado acordo UE-Mercosul”, disse Barroso em comunicado.
Segundo fontes da UE, a agenda da cúpula será primordialmente econômica. A intenção dos europeus é negociar “com todo o grupo” do Mercosul, apesar das diferenças expressadas pelos membros do bloco sul-americano. E as fontes garantem que não foi recebida “nenhuma indicação formal do Brasil ou de outro membro do Mercosul de mudar o enfoque desta configuração”.
As fontes acrescentaram que esperam que os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, já que a Venezuela, que entrou mais tarde no grupo, ainda não participa plenamente dos trabalhos com a União) cheguem a um consenso entre eles sobre qual nível apropriado de ambição, que esperam que seja alto, deve haver nas negociações para que estas avancem.
No que se refere às consultas que UE e Brasil têm na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre as taxas fiscais “discriminatórias” que o país impõe a importações do bloco europeu, as fontes afirmaram que “não vão projetar uma sombra na muito boa relação com o Brasil”.
Na cúpula, também serão abordadas a cooperação em políticas setoriais como competitividade e investimentos e em tecnologia e educação. A UE é o principal destino das exportações e importações do Brasil, e as empresas europeias são as que mais transferem tecnologia e inovação ao Brasil e à América Latina, segundo a Comissão Europeia.
Nesse contexto, as partes vão respaldar os trabalhos de um grupo de especialistas para incentivar a competitividade e os investimentos, assim como um plano de ação para conseguir objetivos nesse campo.
Está previsto também que façam um balanço das negociações de um novo acordo bilateral de transporte aéreo que abriria seus mercados, criaria novas oportunidades de investimento e melhoraria o âmbito operacional e comercial para suas companhias aéreas.
Além disso, esperam dar um impulso ao programa Ciência sem fronteiras e à participação do Brasil no projeto europeu Horizonte 2020 de financiamento à pesquisa científica.
Os dois lados farão ainda um balanço dos progressos na criação de um consórcio eurobrasileiro para a montagem de um cabo submarino que melhore as conexões telefônicas e de internet entre o continente sul-americano e o europeu.
O encontro prevê também debates em assuntos de segurança internacional relacionados às negociações sobre o polêmico programa nuclear do Irã, o conflito na Síria e o processo de paz no Oriente Médio, assim como desafios globais como políticas digitais e a gestão de internet, a mudança climática e o desenvolvimento sustentável.
 

Haitiano espancado até desmaiar em Lajeado

RS melhor em tudo #sqn

Haitiano é espancado por 3 homens no RS. Joseph diz que não sabe o que pode ter motivado tamanha brutalidade. “Ser agredido da forma que fui é inaceitável”

 
Depois de terminar o expediente no trabalho, Renald Joseph (30) pegou sua bicicleta, às 5h, deste sábado, 22, e como de costume, saiu pedalando em direção à sua residência, localizada na Rua Barão do Santo Ângelo, no Centro. Ao passar pela Avenida Benjamin Constant, foi parado por um estranho, que também estava de bicicleta.
Na abordagem, o suspeito pediu se Joseph tinha um cigarro. Atenciosa, a vítima parou para explicar que não fumava. Neste momento, o homem chamou outros dois amigos e percebendo o assalto, o haitiano saiu correndo em direção ao Parque Professor Theobaldo Dick, quase lá, os três suspeitos conseguiram pará-lo.
Já com a bicicleta de Joseph, os bandidos não se deram por satisfeitos, arrancaram a corrente do pescoço da vítima e também tiraram sua camiseta. “Lembro que os três me batiam muito, apanhei nas costas com chutes e socos, e tinha um que batia na minha cabeça com uma pedra”, relata o haitiano.
Bastante abalado, Joseph diz que desmaiou após ser espancado e permaneceu desacordado por alguns instantes. “Quando acordei, consegui com muita dificuldade ir até em casa pedir socorro, foi então o momento em que fui levado para o hospital.” Durante o atendimento, o haitiano precisou fazer quatro pontos na cabeça. “Tenho muita dor no corpo todo.”
Joseph, que reside em Lajeado há 11 meses, diz que não sabe o que pode ter motivado tamanha brutalidade. “Não é a primeira vez que um haitiano é assaltado na cidade, mas agredir da forma que fui agredido é inaceitável.” A vítima garante que o horário do seu trabalho pode facilitar esse tipo de ataque. “Trabalho das 19h às 5h, sei que neste horário tudo é mais perigoso, mas nada justifica o que fizeram comigo.”

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Pobres pagam mais impostos no Brasil


Pobres pagam mais impostos no Brasil



O Brasil diminuiu a desigualdade nos últimos anos e milhões de pessoas deixaram a pobreza. Porém, o país ainda está entre os vinte mais desiguais do mundo. Para avançar, uma das mudanças urgentes é a reforma tributária.

É o que diz Márcio Pochmann, um dos principais economistas do país. “Aqui, são os ricos que reclamam dos impostos, mas quem paga mais são os pobres”, afirmou em entrevista ao Brasil de Fato. Segundo ele, há uma grande resistência dos mais ricos em mudar essa estrutura. “Um exemplo foi a tentativa de mudar a cobrança do IPTU em São Paulo”, diz.

Pochmann é professor da Unicamp e presidente da Fundação Perseu Abramo. Foi secretário de desenvolvimento na prefeitura de Marta Suplicy em São Paulo e presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Nesta conversa, ele fala ainda sobre a importância política dos trabalhadores que saíram da pobreza nos últimos anos e analisa o fenômeno dos rolezinhos. “São manifestações que mostram a falta de espaços públicos”.

O Bolsa Família, maior programa de distribuição de renda do governo federal, completou dez anos. Porém, continuamos como um país muito desigual. Por que isso permanece?

Em 1980, nós éramos a oitava economia capitalista do mundo, tínhamos praticamente metade da população vivendo em condições de pobreza e estávamos entre os três países mais desiguais do mundo. Essa situação praticamente permaneceu durante mais de vinte anos. Foi só num período mais recente que nós conseguimos reduzir a pobreza e a desigualdade. Hoje, nós estamos entre os quinze países mais desiguais do mundo. Houve uma redução importante. E isso num período difícil em termos internacionais, devido a crise econômica de 2008.

O que dificulta que esse processo avance mais?
Existem dificuldades do ponto de vista político e cultural. Nós temos, no Brasil, uma classe média tradicional que tem uma série de assistentes na casa: trabalhadores domésticos, babá, segurança. É um conjunto de pessoas que serve à classe média e aos ricos com base em baixos salários. Com o combate à pobreza e a redução da desigualdade, essa classe média tradicional vai perdendo a capacidade de abrigar todos esses serviços. E aí há uma reação, uma resistência no interior da sociedade. E tem o preconceito também. Em geral, um segmento muito pequeno da sociedade tinha acesso ao uso do transporte aéreo, de poder viajar para outros países, por exemplo. Hoje, segmentos com menor renda também podem ter acesso. Isso gera um desconforto.

Quais medidas ainda precisam ser tomadas para diminuir essa desigualdade?
A reforma tributária certamente é uma delas. No Brasil, historicamente se arrecadou recursos tirando impostos dos pobres e se gastou mais recursos para segmentos mais privilegiados da população. Olhando os governos de 2002 para cá, o que nós tivemos foi uma melhora no perfil do gasto público. Ele se voltou mais para os segmentos mais pobres. Isso é fundamental. Mas ainda há o ponto de vista da arrecadação. Da onde vem o imposto? Nós temos no Brasil uma estrutura tributária regressiva. Os mais pobres pagam proporcionalmente mais impostos do que os mais ricos.

Há perspectivas de melhorar essa conta?
O caso de São Paulo me parece exemplar. Aqui houve a proposta de reajustes diferenciados do IPTU, de acordo com o grau de elevação nos valores dos imóveis. Mas isso gerou uma reação dos meios de comunicação, dos muito ricos, que praticamente impediram na justiça a possibilidade de se melhorar o perfil da arrecadação de impostos no município. A gente percebe que, no Brasil, quem mais critica os impostos são os mais ricos, justamente os que pagam menos. Nós temos aqui em São Paulo o impostômetro, que fica no centro da cidade. Na realidade nós precisaríamos de impostômetro nas favelas. Porque é lá que se paga imposto e praticamente quase nada se recebe do Estado.

Os mais pobres têm consciência de que pagam mais impostos?
Os mais ricos têm mais consciência, até porque o tipo de impostos que eles pagam são conhecidos, são sobre propriedade. Você recebe o carnê e sabe quanto paga de imposto. A maior parte dos pobres no Brasil não tem propriedade. Então eles não têm identificação nenhuma de quanto pagam. Os impostos que os mais pobres pagam são os chamados impostos indiretos, que já estão vinculados ao preço final de um produto. Você não sabe quanto paga, por isso não gera esse questionamento.

Hoje fala-se muito da nova classe média. Há uma nova classe social em ascensão?
O que nós tivemos foi uma leva de 40 milhões de pessoas que eram considerados trabalhadores muito pobres, miseráveis, e que se transformaram em trabalhadores não pobres. Pessoas que passaram a ter um salário melhor, ter acesso à previdência social, direitos trabalhistas, creche, ampliaram o consumo. É semelhante ao que já ocorreu em outros países. Na França na década de 1950, de cada dez operários, um tinha automóvel. No final dos anos 1970, de cada dez, dez tinham automóvel. Ou seja, eles melhoraram de renda, passaram a ter um consumo que antes era visto como somente para os ricos, mas eles jamais deixaram de ser operários, trabalhadores, não mudaram de classe social.

A inclusão dessas pessoas se deu principalmente pelo consumo. Quais as conseqüências disso?
O consumo em geral é a porta de entrada. Estamos tratando de segmentos pauperizados para quem a adição de renda permite realizar demandas, até estimuladas pelos meios de comunicação, que anteriormente eram reprimidas. É natural que isso ocorra, não vejo nenhum mal. A preocupação maior é que, em algum momento, esse segmento que emergiu vai governar o Brasil. É um segmento em expansão, mais ativo, com uma série de demandas e anseios. E ele olha para a estrutura de representação que nós temos hoje, e ela não os representa.

Como assim?
Os partidos não conseguem representar esses novos segmentos, assim como os sindicatos, as associações de bairro, as instituições estudantis. Nós tivemos mais de 20 milhões de empregos abertos e a taxa de sindicalização não aumentou. Nós tivemos mais de um milhão de jovens, em geral de famílias humildes, que ascenderam ao ensino superior, através do Prouni, mas eles não foram participar das discussões estudantis. Alguma coisa está estranha. Há certo descompasso entre as instituições de representação de interesses e esses segmentos que estão emergindo. E essa é a tensão na política de hoje, saber para onde vai isso. Porque, embora não seja um contingente homogêneo, é um grupo de pessoas que, organizadamente, fará a diferença na política no Brasil. E esse é um desafio.

Vimos recentemente o fenômeno dos rolezinhos. O que esses eventos mostram sobre o momento do país?
A impressão que eu tenho é que esses movimentos expressam uma insatisfação. Acho que há neles uma crítica relativa ao grau de riqueza que o país tem, mas que não dá acesso plenamente para essa população. São manifestações que desejam mais, que cobram dos governos serviços de melhor qualidade. E não só serviços públicos. Temos hoje problemas seríssimos de serviços no país. Há uma crítica inegável aos serviços bancários no Brasil, aos serviços de telecomunicações, de saúde privada. Estamos num momento em que essa tensão em torno da questão dos serviços se associou à emergência desses novos segmentos da população. São pessoas que estão satisfeitas com a ascensão, mas querem mais.

No caso dos rolezinhos, qual seria a demanda?
Acho que é uma tensão em torno da questão do espaço público. É uma visão que se tem de que o shopping center é hoje um dos poucos espaços em que você tem segurança, tem lugares para caminhar. O que infelizmente a cidade não tem, não tem calçadas decentes, não tem um espaço público. O sonho de muitos prefeitos anteriormente era construir muitos espaços públicos, áreas de lazer, de entretenimento. Hoje isso se perdeu em nome da privatização do espaço público. É uma tensão também em torno de como ocupar o tempo livre, porque hoje praticamente inexistem oportunidades coletivas, públicas e adequadas para isso.

Dá para dizer que essa é uma das principais preocupações do jovem hoje?
Em parte sim. Mas nós ainda temos questões graves na juventude brasileira. Ainda temos um problema de desemprego. Não é um desemprego comparado ao de países europeus como Espanha e Grécia. É muito menor. Mas ainda há um problema de inserção no mercado de trabalho. Também tem a questão da qualidade do emprego. Temos empregos de baixa qualidade, principalmente para os jovens mais pobres. Ao mesmo tempo, uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo mostra que o jovem também não quer só emprego e renda. Ele quer também um outro horizonte de vida, que ele não consegue se observar na realidade que nós vivemos hoje.
 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Mensalão do PSDB: Eduardo Azeredo renucia ao cargo

Eduardo Azeredo renuncia ao mandato

Eduardo Azeredo: réu do mensalão do PSDB
 
O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, recebeu nesta quarta-feira (19) carta de renúncia do deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG). O documento foi entregue pelo filho do parlamentar, Renato Azeredo, e pelo advogado José Gerardo Grossi. A renúncia do tucano já havia sido confirmada mais cedo pela sua assessoria de imprensa. Alves afirmou haver sido comunicado previamente da decisão.
“Ele ligou pouco tempo atrás antecipando a decisão e (disse que) vai dedicar a vida a defender a honra dele e a família”, disse o presidente Henrique Eduardo Alves.
A carta de Azeredo foi lida em Plenário pelo deputado Inocêncio Oliveira (PR-PE), que presidia a sessão. Em trecho da carta o deputado se diz inocente e nega ter participado de qualquer prática de lavagem de dinheiro ou outra conduta ilegal. Azeredo afirma ainda que preferiu renunciar a se submeter a processo de cassação.
“Não vou me sujeitar a execração pública nesta Casa, que está sujeita a pressões politicas. Minhas forças já se exaurem com sérios riscos a minha saúde. Não aceito que meu nome continue sendo enxovalhado”, diz a carta. No texto, Azeredo escreve que deixa o parlamento para se dedicar à defesa da dua honra e liberdade. “Fui transformado em mero alvo político destinado a sofrer ataques para assumir delitos cometidos pelos outros”, diz.
O deputado João Bittar (DEM-MG) será efetivado na vaga de Azeredo. Hoje, Bittar é suplente, mas já ocupa a vaga deixada por Carlos Melles, que atualmente é secretário de Estado de Transportes e Obras Públicas de Minas Gerais. No lugar de João Bittar será chamado Ruy Adriano Borges Muniz (DEM-MG). Se Muniz não quiser assumir a vaga – já que ele é prefeito de Montes Claros (MG) — será chamado Edmar Moreira (PR-MG).
Ação penal
Azeredo é alvo de uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) – a Ação Penal 536 – que investiga o suposto desvio de recursos públicos que teriam sido utilizados durante a sua campanha à reeleição ao governo de Minas Gerais (1998).
De acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR), o desvio alcançaria, em valores atuais, R$ 9,3 milhões. Os recursos viriam de duas estatais e de um banco, todos administrados pelo governo mineiro. O procurador-geral, Rodrigo Janot, pediu a condenação de Eduardo Azeredo pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro, pelo qual pediu a pena de 22 anos de reclusão e multa.
Azeredo alega que não teve responsabilidade na condução financeira da sua campanha eleitoral, gerenciada por terceiros. Além disso, segundo ele, as empresas que teriam tido os recursos desviados eram conduzidas por diretorias autônomas, com poder para realizar negócios e gerir o patrimônio, independente do governo do Estado.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Ucrânia: protestos se agravam; nove mortes

Cenários geográficos do mundo
 

Manifestantes ateiam fogo em barricadas nos acampamentos na Praça da Independência, enquanto a polícia avança depois de um dia de violência

 
Protestos violentos em Kiev
Nove pessoas morreram durante confrontos entre manifestantes contrários ao governo e a polícia na capital da Ucrânia nesta terça-feira, incluindo sete civis e dois policiais, disse uma porta-voz da polícia.
A violência aconteceu quando a tropa de choque da polícia ucraniana avançou sopbre a Praça da Independência, epicentro das manifestações em Kiev. Depois de doze semanas de protestos contra o presidente Viktor Yanukovichm, as forças de segurança estabeleceram um prazo para que as manifestações acabem.

Fontes da Saúde na praça Maidán, como é conhecido o bastião opositor na Praça da Independência da capital ucraniana, informaram sobre a existência de 150 feridos.
Violência em Kiev
Confrontos
Manifestantes e políciais protagonizam hoje em Kiev os primeiros choques violentos desde os violentos embates do fim de janeiro passado.
Os confrontos explodiram a rua Grushevki quando a polícia tentou impedir a passagem de uma grande passeata convocada pela oposição para demandar que se restitua a Constituição de 2004 para recuperar o sistema presidencial-parlamentar.

O dirigente opositor ucraniano Vitali Klitschko pediu nesta terça-feira que mulheres e crianças abandonem a Praça da Independência (Maidan) de Kiev diante da possibilidade de serem expulsos pelas forças antidistúrbios.

Apelo
"Peço às mulheres e às crianças que abandonem Maidan. Não descarto a dispersão", disse Klitschko falando para os manifestantes na praça da capital ucraniana.
Klitschko pediu às forças de segurança para cessar a violência, e assegurou que, "apesar das fracassadas tentativas anteriores de realizar negociações pacíficas", não se deve desperdiçar essa oportunidade, em alusão à reunião prevista para amanhã com o presidente ucraniano, Viktor Yanukovytch.

"Estamos aqui no Maidan, e não permitiremos que seja desalojado pela força. Pedimos à polícia e aos Berkut (forças antidistúrbios) para não fazê-lo. O mais importante é impedir o derramamento de sangue", acrescentou.
 

Luis Fernando Veríssimo: o incrível e o inacreditável (DISSE TUDO)

“Incrível” e “inacreditável” querem dizer a mesma coisa — e não querem. “Incrível” é elogio. Você acha incrível o que é difícil de acreditar de tão bom. Já inacreditável é o que você se recusa a acreditar de tão nefasto, nefário e nefando — a linha média do Execrável Futebol Clube.
Incrível é qualquer demonstração de um talento superior, seja o daquela moça por quem ninguém dá nada e abre a boca e canta como um anjo, o do mirrado reserva que entra em campo e sai driblando tudo, inclusive a bandeirinha do córner, o do mágico que tira moedas do nariz e transforma lenços em pombas brancas, o do escritor que torneia frases como se as esculpisse.
Inacreditável seria o Jair Bolsonaro na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara em substituição ao Feliciano, uma ilustração viva da frase “ir de mal a pior”.
Incrível é a graça da neta que sai dançando ao som da Bachiana nº 5 do Villa-Lobos como se não tivesse só cinco anos, é o ator que nos toca e a atriz que nos faz rir ou chorar só com um jeito da boca, é o quadro que encanta e o pôr de sol que enleva.
Inacreditável é, depois de dois mil anos de civilização cristã, existir gente que ama seus filhos e seus cachorros e se emociona com a novela e mesmo assim defende o vigilantismo brutal, como se fazer justiça fosse enfrentar a barbárie com a barbárie, e salvar uma sociedade fosse embrutecê-la até a autodestruição.
Incrível, realmente incrível, é o brasileiro que leva uma vida decente mesmo que tudo à sua volta o chame para o desespero e a desforra.
Inacreditável é que a reação mais forte à vinda de médicos estrangeiros para suprir a falta de atendimento no interior do Brasil, e a exploração da questão dos cubanos insatisfeitos para sabotar o programa, venha justamente de associações médicas.
Incrível é um solo do Yamandu.
Inacreditável é este verão.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Ótima entevista com o criador do movimento "Massa crítica", Chris Carlsson


Historiador Chris Carlsson quer mudar o mundo que conhecemos
 
 
                                          Nowtopia: Conceito criado por Chris Carlsson
Qual foi o contexto em que a Massa Crítica surgiu?
No início dos anos 1990, na região em que eu morava em San Francisco, não havia muita gente andando de bicicleta. Mas havia alguns de nós, e nos reuníamos socialmente, para beber cerveja, fumar maconha e conversar sobre coisas como política e ciclismo. Depois de cerca de um ano, uma ideia apareceu nesses bate-papos, de que deveríamos fazer algo novo. E essa nova ideia foi de que deveríamos nos reunir em um determinado local e pedalar para casa. Enchendo a rua de bicicletas, não deixaríamos lugar para os carros. A ideia era de que nos tornaríamos o trânsito, e que o ritmo seria determinado por nós. A primeira vez foi em setembro de 1992, quando apareceram umas 50 pessoas. Um mês depois, foram 75 pessoas, e um mês depois, cento e poucas pessoas, e não parou de crescer, até que, um ano depois, éramos mil pessoas. Agora, já se passaram 21 anos, e as pessoas ainda participam. Geralmente, centenas – às vezes, milhares.
 

Havia um propósito além desse?
Nunca realmente teve um propósito além de identificar outros ciclistas e nos encontrar em um lugar público. Não há uma organização – chamamos de “coincidência organizada” –, e não há estrutura formal, é só aparecer em uma bicicleta que você é um membro igual a todos os demais. Era muito empolgante fazer parte disso, então as pessoas começaram a fazer o mesmo em outros lugares. Era uma amostra de uma nova vida que poderia existir na cidade.
O que mudou nos 21 anos de Massa Crítica? Ela ficou mais politizada?
Teve bastante política no começo, mas muitas das pessoas que apareciam não se importavam com isso. Nos Estados Unidos, as pessoas acham que política é algo que acontece a cada quatro anos. Fora isso, acham que nada é político. Eu acho que política está em tudo que fazemos, qualquer conversação ou interação que se tenha com outro ser humano. Eu pus esses argumentos em panfletos que entregamos às pessoas na Massa Crítica. Pela primeira vez em anos, tivemos muitas discussões e debates sobre política, filosofia, então uma cultura muito intensa surgiu. Acho que por isso ela teve tanto poder para ir além de San Francisco. Na Itália, por exemplo, o evento é muito político, assim como em outras partes do mundo. A Massa é basicamente uma incubadora, um espaço em que as coisas começam a acontecer.
A população de Porto Alegre, em geral, conheceu a Massa Crítica há três anos, quando um motorista atropelou ciclistas que participavam do evento. E, de fato, há muita gente que acredita que a Massa é composta de ciclistas que apenas querem atrapalhar a vida das outras pessoas. O que o senhor acha disso?
A mídia distorceu completamente o que acontecia. No passado, diziam que a Massa Crítica tratava-se, basicamente, de bloquear o trânsito, de confrontar, um movimento raivoso, anarquista e violento. Se você for pensar, há 20 anos tem ocorrido essa pedalada em massa em centenas de cidades do mundo. Com a exceção de Porto Alegre, quase não houve incidentes com violência. O primeiro pressuposto na sociedade é de que quem dirige um carro tem o direito da rua, e que todos os demais deveriam sair do caminho, porque o motorista do carro é o dono da rua. Isso não é verdade, mas é a presunção feita na nossa sociedade baseada no automóvel. E a Massa Crítica é uma resposta política a isso. Não, a rua é um espaço público, que todos podem usar. Aliás, provavelmente não deveríamos usá-la para transporte todo o tempo.
Como dá para mudar isso?
Já está mudando. Há pessoas que estão trabalhando muito para mudar políticas em nível municipal e que realmente têm ideias sobre como organizar o espaço urbano. Há encontros de pessoas em espaços públicos para debater suas vidas como cidadãos em uma democracia, em vez de serem meramente consumidores passivos na sociedade que os circunda. É esse tipo de mudanças lentas, passo a passo, que vai mudar o mundo. Leva um longo tempo. Mas as pessoas são impacientes, querem que as coisas aconteçam hoje, amanhã.
O mercado abraçou a cultura da bicicleta. É possível ver bikes em anúncios de todo tipo de produto, de roupas a empreendimentos imobiliários. É uma oportunidade para a causa ou apenas uma distração?
Ambos. Mas, principalmente, é devido ao funcionamento normal da sociedade capitalista, que sempre tem sido pegar qualquer fenômeno humano interessante e reduzi-lo a commodities, para venda, tirando o seu significado. O fato de que a bicicleta se tornou uma tendência, para mostrar que você é jovem, elegante e inteligente, não é surpreendente. O mesmo ocorre na moda, na música.
Que país ou cidade é mais avançado em políticas pró-bicicleta?
Gosto muito de Copenhague (capital da Dinamarca), onde minha mãe nasceu. Já fui lá muitas vezes, e sempre me surpreendo positivamente com o fato de a bicicleta ser o principal meio de transporte, como os carros cedem lugar às bikes. Creio que uma em três viagens em Copenhague seja feita de bike, mesmo na neve. Minha avó pedalou lá até os 90 anos. Espero fazer o mesmo.
Em Porto Alegre, os ônibus estão em greve há mais de 10 dias. Como são basicamente o único meio de transporte coletivo, a população está sofrendo muito. O que isso nos diz sobre planejamento urbano?
Minha reação normal a uma greve de transporte é de que ela seria mais eficiente se os grevistas continuassem a trabalhar, mas não cobrassem as passagens. Assim, teriam toda a população ao lado deles, e o serviço continuaria sendo prestado. Do ponto de vista de políticas públicas, deveria aumentar a oferta de serviços compartilhados, fora da lógica do mercado e do dinheiro. Isso não virá do governo, tem de vir de baixo. Sempre espero coisas novas das pessoas comuns, não do governo.
Desde o atropelamento da Massa Crítica, três anos atrás, e com os protestos do ano passado, fomos confrontados por movimentos horizontais, sem líderes. Como entender e lidar com esse tipo de movimento?
A vantagem do horizontalismo é que todos podem participar e que você consegue criatividade máxima vindo de baixo. Nem sempre funciona bem, às vezes pode ser terrivelmente ineficiente, não é a melhor resposta para tudo o tempo inteiro. Mas, em geral, deveríamos ir nessa direção o máximo que pudermos. Movimentos horizontais também oferecem muita flexibilidade: podem mudar de forma e comportamento muito rapidamente. Os governos geralmente não podem fazer isso, porque são sistemas hierárquicos antiquados e obsoletos, e eles não podem encarar isso sem ser com força bruta. Mas o horizontalismo produz também muito caos para todos, inclusive para quem participa. Mas é um período de aprendizado, e fenômenos horizontais devem acontecer mais e mais.
A cultura da bike originou fanzines, oficinas comunitárias e a Massa Crítica. Esses são exemplos do que o senhor chama de Nowtopia (a utopia do agora, em tradução livre). Qual é a ideia por trás desse conceito?
A maior parte do trabalho que as pessoas fazem é uma perda de tempo. Elas deveriam parar. Bancos, seguros, mercado imobiliário, publicidade, produção de armas militares e de produtos que estragam a cada seis meses. Mas as pessoas continuam tendo de ganhar dinheiro para pagar as contas. Então, temos a vida dividida entre o trabalho que precisamos fazer para sobreviver na sociedade capitalista e o trabalho que realmente queremos fazer, o que define quem somos. Eu trabalhava em um banco quando era mais jovem. Olhava ao meu redor e via pessoas muito semelhantes, mas que tinham ideias diferentes sobre quem cada um era. Não éramos bancários, apenas estávamos trabalhando em um banco por algum tempo para ganhar dinheiro. Percebemos que as pessoas, quando não estão em seus empregos, estão trabalhando muito em outra coisa, geralmente criativa.
Quais são outros exemplos?
Outro exemplo são as hortas urbanas. Pessoas começaram a cultivar alimentos orgânicos perto de casa em áreas desocupadas. Isso muda tudo: a relação delas com o ecossistema em que vivem, o entendimento da ciência do solo, da luz do sol e da água, de uma forma que não poderiam entender se lessem uma revista ou um livro. Outro exemplo é o mundo do software. Muitas das coisas que mais gostamos na vida moderna dos computadores são de graça e foram feitas por pessoas que estavam mexendo com softwares fora da lógica de seus empregos. Basicamente, o conceito da Nowtopia é de as pessoas tirarem seu tempo e seu conhecimento do mercado. Assim, estão construindo a fundação para a vida pós-capitalismo, o que é uma necessidade urgente.
Todo mundo tem esse potencial? Vemos muitas pessoas que não fazem esse tipo de atividade extra.
É uma minoria na sociedade, mas uma minoria importante – estão em cada vez mais partes do mundo. A melhor forma para entender é com um slogan antigo: “É a semente do novo mundo crescendo na cápsula do velho mundo”. É uma visão utópica, que nunca aconteceu em lugar algum. Se poderá acontecer? Acho que pode, creio que essas são ações de pessoas indo nessa direção. Mas há forças poderosas que farão tudo para minar esses esforços. Temos um longo caminho pela frente, precisamos do que chamo de “paciência radical”.
O senhor diz que o conceito de classe média é um mito. Por quê?
Estou interessado no significado mais profundo de classe, que foi descrito por (Karl) Marx em O Capital, em que há essencialmente duas classes: a dominante e a dominada. Por isso, a classe média é um mito. E é um mito importante, porque faz com que as pessoas não pensem sobre o seu trabalho. A classe média, em sua maioria, está mais interessada no que pode comprar ou possuir. O problema real é que não temos democracia na economia. É sobre isso que falamos em relação à classe média: é uma sociedade em que as pessoas abdicaram da responsabilidade de participar das escolhas sociais, políticas e democráticas sobre o que produzimos e como produzimos. Você pode se identificar como quiser, mas o fato é que precisa se vender ao seu emprego, mesmo se for bem pago. A maioria das pessoas de “classe média” que conheço são apenas proletários com uma boa renda.
Milhões de brasileiros foram às ruas para protestar contra “tudo que está aí”. O que o senhor acha que os protestos indicam?
Fiquei muito feliz com o que aconteceu no Brasil e na Turquia, em fenômenos muito similares. Toda a estrutura da sociedade estava em xeque. Há uma certa transferência de energia para um movimento de oposição social que explode de repente em diferentes lugares de forma que nunca vimos antes. E é apenas o começo. As pessoas aprenderam muito naqueles dias na rua, sobre como se organizar, que tipos de problemas aparecem e como enfrentá-los. Não resolveram todos os problemas e não terminaram a revolução, ela ainda está dormente. Mas isso mostra que ela pode acordar em um período curto de tempo. Eu realmente acho que isso está relacionado com a Nowtopia e ao entendimento de que a vida pode ser muito boa – não apenas para os ricos, mas para todos.
O senhor não acha que, sem a busca pelo dinheiro, não haveria avanços tecnológicos? Ou isso não importa?
Temos mais tecnologia do que precisamos. E muitas vezes trata-se de usar menos tecnologia, e não mais. Precisamos melhorar nosso trabalho em reciclar o que já produzimos, e não criar esses lixões por todos os lados. E haveria avanços tecnológicos em um mundo sem dinheiro, claro. Porque ainda haveria paixão pela ciência, pela inovação. É um prazer pessoal, competitivo, de tentar criar algo novo, legal, que facilitaria a vida. Também há o reconhecimento social que vem disso.

O senhor é autônomo há muitas décadas e participa de vários projetos comunitários. De onde vem a sua renda? Como o senhor disse, ainda precisamos pagar as contas...
É verdade. Eu ganho um pouco de dinheiro de várias fontes. Uma pequena parte da minha renda vem de trabalhos com design e layout de livros. Ganho um pouco de dinheiro no meu projeto histórico, Shaping San Francisco. Ganho também para dar aulas – estou lecionando em uma universidade local, San Francisco Art Institute. Também ganho um pouco de dinheiro (bem pouco) escrevendo artigos. Entre todas essas coisas, ganho apenas o suficiente para sobreviver.
Quando o senhor resolveu viver assim?
Nunca vivi de outra forma. Tive empregos em bancos e outros trabalhos temporários nos anos 1980. Depois disso, nunca mais tive um emprego, sempre tive meus pequenos negócios. Mas muitos dos meus trabalhos fiz de graça. Sempre ganhei apenas o suficiente. Minha meta sempre foi ter um custo de vida muito baixo. Consigo isso com um aluguel barato e por não ter um carro. Carros consomem grandes quantias de dinheiro.
Que conselhos o senhor dá a quem quer se libertar da vida que vive?
É fácil. Não acontecerá tudo ao mesmo tempo, mas você deve dar passos na direção certa. Faça o que você ama, mas não por dinheiro. Tente minimizar o tempo que você gasta fazendo dinheiro e maximize o tanto da sua vida que é de graça. Você estará fazendo coisas com as quais realmente se importa. Saiba que a verdadeira riqueza não é dinheiro, são relacionamentos. São pessoas que estão na sua vida e cuidam de você, e das quais você toma conta. Porque o dinheiro some em minutos. Se você começar a mudar a sua maneira de compreender a riqueza e a vida, descobrirá que é mais rico do que pensava, e que poderá ter muito mais se perseguir essa lógica.

Fonte:
http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/noticia/2014/02/historiador-chris-carlsson-quer-mudar-o-mundo-que-conhecemos-4413852.html